Papos de Laíza #02 - Essas mulheres complicadas


"Mas o seu descompasso com o mundo chegava a ser cômico de tão grande: não conseguiria acertar o passo com as coisas ao seu redor. Já tentara se pôr a par do mundo e tornara-se apenas engraçado: uma das pernas sempre curta demais. ( O paradoxo é que deveria aceitar de bom grado essa condição de manca, porque também isto fazia parte de sua condição). (Só quando queria andar certo com o mundo é que se estraçalhava e se espantava. [...] ( Lóri se cansava muito porque não parava de ser)”

(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres – Clarice Lispector)

Eu não sei se já disse, mas se não disse, digo agora: Clarice Lispector é uma grande amiga.

Na semana do Dia internacional da mulher, quis mesmo escolher uma mulher pra estar entre nós. Pensei nas clássicas: Jane Austen, Simone de Beauvoir, J.K. Rowling, e cheguei à conclusão de que queria Clarice, a queridinha das meninas literárias e a piada dos meninos não tão literários.

Conheci a autora com dezesseis anos, quando começava a ser uma menina literária. Conheci através de Macabéa, de A hora da estrela. Nessa idade, considerei o livro profundo e engraçado (hoje o considero um monte de coisas, mas não tão engraçado). Desde então, quis me aproximar de tudo que se referia à Clarice. Aqui estou eu com uma citação de Uma aprendizagem, um livro cheio de filosofia e amor.

Pra mim, Lóri, a personagem principal dessa obra, é uma das mulheres mais comuns que Clarice criou: cheia de inseguranças, vaidades e medos.  Talvez eu diga isso porque ela é o protótipo que os homens têm de mulher complicada, ou talvez eu diga isso porque ela é a personagem que mais reflete as minhas inseguranças, vaidades e medos. Todas as incertezas de Lóri se tornam assustadoramente aparentes quando ela conhece Ulisses, que é o tipo de cara que a gente quer, mas não quer querer porque ele é irritantemente convencido.

Ulisses quer ensinar Lóri a viver – e realmente ensina – antes de eles se envolverem emocionalmente. Mas é tanta ansiedade no corpo da moça que ela balança entre a carência e o orgulho nessa descoberta da satisfação.  O livro gira em torno desse caminho do casal.
A pergunta que eu sempre me faço quando releio o livro é:quem não balança, não se desequilibra, no caminho do aprendizado? A fome de aprender a ser, “a andar certo com o mundo”, é que torna nosso coração cansado, numa sucessão ininterrupta de experiências para finalmente conseguir ser. Isso, e não o fato de ser mulher, é que torna alguém complicado.

Tentar entender o porquê de haver um inconsciente coletivo machista de que as mulheres são mais complicadas que os homens pode não valer tanto a pena quanto entender, de uma vez, que tentar viver é que é difícil. Por isso, as pessoas difíceis são as que, mais insistentemente, tem tentado aprender a viver. Quanto mais se tenta, mais o mundo muda, e mudam com ele as fórmulas da felicidade e de tudo que você busca na vida. A vontade e a pressa de ser, e ser como se deve ser, faz de todos nós um bando de gente muito engraçada. Meio mancando meio dançando, a gente corre também pra não ficar pra trás.


Nessas horas me lembro de um cara (um personagem, na verdade, rs) que disse: “Viver é muito perigoso”. Poderia ter sido uma mulher, mas não, foi um cara criado no sertão brasileiro, onde “machismo” e “feminismo” não estão no vocabulário das pessoas. 

Laíza Verçosa

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1 comentários :

  1. Oi Laiza, a Clarice é fantástica... ela foi uma das primeiras autoras que conheci após entrar no mundo literário, suas obras são fantásticas, ela não escreve simplesmente, Clarice faz algo a mais! =)

    ^^

    http://joandersonoliveira.blogspot.com.br/

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